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10.2.08

Un Je Ne Sais Quoi



Depois de 52 horas de montagem, o mínimo que posso fazer é apresentar a nossa curta.

Um escritor coloca um anúncio num jornal a pedir diários pessoais para se inspirar para a sua próxima obra. Resolve cruzar a vida de duas das pessoas que enviam o seu diário graças a uma característica comum. Essa história passa do plano imaginário para a realidade.

Realizado por: Amanda Ribeiro / Diana Seixas / Filipa Cardoso / Joana Martinho /
Luana Freire/ Melissa Mota

nota: O Google Video tornou isto 4:3 e deveria ser 16.9. Logo, imaginem a coisa mais estendida, tá? :x

18.1.08

"Também sou um ilegal" - Paulo Moura

Sou um ilegal. Por exemplo (e isto é uma confissão que faço publicamente pela primeira vez): numa escaldante noite de Agosto, peguei na moto, a minha saudosa Honda VFR 800 FI, e fui de Lisboa ao Porto a 280 km/h. Nem os radares me detectaram. (...)

Magdalene, uma menina de 16 anos, não tinha dinheiro para pagar, aos mafiosos como Karim, a travessia do Estreito e estava a morrer de febre tifóide numa floresta dos arredores de Ceuta. Como era muito boa aluna na Nigéria, acreditava que, mal chegasse à Espanha, teria uma bolsa do Governo para prosseguir os estudos. Quando lhe perguntei porque teria essa sorte, quando todas as outras nigerianas são obrigadas a prostituir-se, deu-me a resposta mais inteligente que eu ouvi em toda a minha carreira de jornalista: "Porque o meu Deus te vai usar a ti para me ajudar".
Eu decidi escondê-la na mala do carro, trazê-la para Portugal e tratar dela. Fui à fronteira investigar as probabilidades de sermos revistados e apanhados, congeminei planos e estratégias, mas decidi não a trazer. Abandonei a Magdalene.

O chefe da floresta, um nigeriano alto com ar de cowboy a quem chamavam o "Americano", fez-me prometer-lhe outro tipo de ajuda. Regressou à Nigéria e pediu-me por email que entregasse na embaixada uma carta de recomendação com um termo de responsabilidade e um convite para visitar Portugal. O "Americano" era um homem inteligentíssimo que, se tivesse realmente nascido nos EUA, seria um prestigiado professor ou advogado. Como nasceu na Nigéria, era o chefe da Mafia. Num outro email, mandou-me fotografias de duas estatuetas africanas do século XII A.C saqueadas num museu. Explicava que pertenciam à sua família e pedia-me que lhe encontrasse comprador. Seria o início da sua vida de homem de negócios em Portugal.
Pensei numa das tiradas Michel Houellebec: nós não odiamos os imigrantes por os considerarmos inferiores. Tememo-los porque achamos que são melhores do que nós.
E menti: escrevi ao embaixador português dizendo que o sr. M. Era um homem de bem e que vinha passar férias a minha casa. Se o plano do "Americano" para obter um visto resultou, cuidado: ele está aí a chegar!

Ao contrário de Magdalene, Aimee conseguiu atravessar. Mal desembarcou em Algeciras, a mafia enviou-a para Lisboa, onde se prostitui na praça do Intendente. Fui lá muitas vezes entrevistá-la, no âmbito dos meus trabalhos sobre imigração. Tornei-me amigo dela e das outras jovens nigerianas. Um dia, soube que ia haver uma grande rusga da Polícia e telefonei a avisá-las. "Aimee, fujam daí rapidamente, a Polícia vai prender todos os ilegais". Salvei-as.
Foi um dos dias mais felizes de que me lembro, confesso-o publicamente pela primeira vez.
Sou famoso no Intendente. Chego lá e um enchame de prostitutas negras corre a abraçar-se a mim: Paulô, Paulô! A Polícia pensa que sou um traficante disfarçado de chulo e deixa-me em paz.

Paulo Moura, Público, 2.4.06

Paulo Moura é um dos mais interessantes jornalistas portugueses. É um percursor do chamado jornalismo literário. Todos os seus escritos estão rodeados de cheiros, sabores, ritmos e vivências deliciosas.

Em Novembro entrevistei-o para um trabalho sobre a relação do jornalista com as fontes em campo de guerra. Durante duas horas ouvi-o com a atenção de uma criança. Fiquei petrificada com as histórias sobre o Iraque, sorri quando o meu gravador se tornou um obstáculo. Lembro-me de ele ter falado sobre o trabalho que tinha feito com os imigrantes. De afirmar, veementemente, que tinha sido mais perigoso, em determinadas situações, passar aqueles meses com eles do que estar em cenário de guerra.

Hoje, quando pela primeira vez peguei nos apontamentos para o exame de amanhã, deparei-me com este título. Ele disse-me, também, uma coisa engraçada. Hoje em dia toda a gente ignora a morte porque está longe e é noticiada de forma fria. Por isso é que ele experimenta (e lecciona) jornalismo literário.

Há um livro sobre os meses que ele passou com os grupos de pessoas que tentam passar para a Europa. Chama-se Passaporte para o Céu. Não vou tardar em comprá-lo.

30.11.07

Puxando a brasa à minha sardinha...

Novo programa JPR. Autoria: Eu + Joana Coimbra. Nome: Plug-Indie. Recomendação: OUÇAM!

27.10.07

"A voz, na rádio, é tudo o que temos; sendo tudo, fazemos daquela voz também a pessoa toda"


"Ela era uma mulher jovem, franzina, de olhos escuros e muito brilhantes, límpidos. Guardava no rosto traços de menina, sobretudo quando ria com aquele riso claro e inocente. O cabelo era preto, curso e liso, sedoso, com duas pontinhas viradas para a frente nos dois lados do rosto. O nariz pequeno e arredondado, os lábios não muito grossos, bem desenhados, com um suavíssimo toque de bâton quase incolor. Vestia simples mas elegante, túnicas, blusas claras e discretamente coloridas. A voz era uma voz agradável, amigável, risonha também, daquelas que dão vontade de conversa.
Eu sabia isto tudo dela e, no entanto, nunca a tinha visto. Seria capaz de a reconhecer se a visse assim, na rua, tão certo estava (estaria?...) de que ela era como eu "sabia" que era. Mas eu só a conhecia de a ouvir, não de a ver. Ela era, para mim, uma voz da rádio que me habituara a escutar com regularidade num programa matinal, durante as viagens de carro a caminho do trabalho. De tanto a ouvir, e só a partir da sua voz, fui imaginando como ela seria, dei-lhe um rosto, feições, cabelo, olhos, tudo. É algo que faço por vezes, é uma maneira de tornar real, palpável, inteira, uma pessoa de quem só conheço a voz e que, por qualquer razão, ouço frequentemente. Imagino-a só a partir da voz e, a partir daí, sempre que a ouço também de algum modo a "vejo".
Há dias, ela apareceu num programa de televisão. Eu não estava a olhar no momento, mas ouvi a voz e reconheci-a de imediato. Olhei, então, para a ver como eu "sabia" que ela era. Mas não era nada como eu sabia! Nada, nada, nada... Era loura, tinha os cabelos compridos, os lábios mais grossos do que a imaginara, a silhueta diferente, os olhos muito mais pintados do que eu "via", até o sorriso, esse sorriso que eu conhecia tão bem, parecia diferente quando saído daquela mulher agora em carne e osso. Só a voz se mantinha tal e qual. Foi uma surpresa... De tal modo que no dia seguinte, quando voltei a "encontrá-la" no programa matinal de rádio, nem sabia bem o que fazer: se continuar a "ver" aquela que eu imaginara desde sempre (mas já não era muito capaz...), se dar um novo corpo e uma nova imagem (os seus reais, afinal) àquela voz tão familiar e, de repente, também algo estranha.
Dei comigo a pensar como este é, e continua a ser, um dos lados sedutores da rádio, um lado de magia. A rádio leva-nos frequentemente a criar laços de grande familiaridade com pessoas que são, para nós, sobretudo uma voz. Mas a voz, na rádio, é tudo o que temos; sendo tudo, fazemos daquela voz também a pessoa toda. Imaginamo-la, criamo-la, desenhamo-la em função sabe-se lá de quê, em função do seu tom, do timbre, dos seus trejeitos, do modo de falar, do seu jeito de rir, se calhar do que queremos que seja. E sonhamos, criamos uma pessoa inteira com quem convivemos durante pedaços do nosso dia. E deixa de ser importante, para nós, se ela é parecida com o que imaginamos ou nem pouco mais ou menos. O modo como ela se faz presente para nós é pela voz, e pela voz toda ela se recria, toda ela vive. Neste sentido, o rádio é mais "caixa mágica" do que a própria televisão".

Figaldo, Joaquim, "Vozes da Rádio", Público, 24 de Outubro 2007


Um brilhante artigo sobre aquilo que a rádio pode ser para o espectador: imaginação.

3.10.07

Paulo Ribeiro num universo masculino

(foto: JPN)

Numa conversa entre homens, futebol é um dos temas mais esperados. Em Masculine, ainda o espectáculo não começou, ainda o público não se sentou, e já as quatro personagens estão em palco: recebem o público com uns ‘toques na bola’. Exercícios de aquecimento?! “É mais uma ironia… talvez demasiado óbvia!”, afirma Paulo Ribeiro, o autor desta viagem pelo universo masculino.
Este mundo é um cruzamento de ritmos e estilos. Textos de Fernando Pessoa entrelaçam-se com histórias pessoais, poemas declamados vivem no timbre das canções, corpos que dançam Bolero num duelo improvisado entre Ravel e Zappa. É um palco onde tudo pode acontecer.

Paulo Ribeiro confiou esta missão a três dançarinos - Peter Michael, Romulus Neagu e Romeu Runa- e a um actor – Miguel Borges. Uma escolha propositada para uma peça em que os textos tinham de ter outra vocalização. No entanto, neste “espaço de liberdade” há muitos géneros a desenvolverem-se e, por vezes, a dança surge em segundo plano. Há o risco da atenção do espectador ficar retida no humor cúmplice de cada gesto dos intérpretes.
Neste limiar permanecem as vontades dos dançarinos-actores. Entre as gargalhadas do público, percebe-se que é desta forma que se constroem novos caminhos artísticos e se prevê o futuro. No final, há a bola que, do céu, cai no palco. “Tem a ver com esta questão dos ciclos… o de passar a bola e continuar”.


Este mês, no JUP: um dos trabalhos que mais gostei de fazer desde sempre.

2.3.07

Love Phobia


Fui ao Fantasporto hoje ver um filme sul-coreano. Uns chamaram-me de louca, outras de crente. Eu achei que, provavelmente, teriam razão. Mas enganei-me. E eles também.
Love Phobia retrata uma história de amor que dura praticamente vinte anos, de uma forma sublime. Consegue ser, simultaneamente, cómico e dramático. Descreve uma criança que tem de usar uma gabardina amarela para prevenir que uma maldição que tem desde que nasceu alastre a todas as pessoas que conhece. Todos têm medo dela, menos um menino... E vem-se a descobrir, mais tarde, com os meninos mais crescidos, que a maldição era muito mais que isso.
(e veio tão ao propósito da eterna discussão das relações)

Se tiverem possibilidade, por favor, vejam. Não se vão arrepender.

Devo dizer que estou oficialmente inscrita na JPR e activa no JUP.

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