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29.12.08

Os desenhos deles

Esta sou eu

na opinião de três dos meus sobrinhos.
Qual preferem?



Gabriel, três anos.
Gosta de abstraccionismo.


Carolina, quatro anos.
Realista, mas com potencial para Action Painting


Sebastião, nove anos.
Possivelmente, renascentista,
dado as minhas formas perfeitas e os meus olhos azuis.

29.10.08

Escher, "Print Gallery", 1956


"...an amazing mind bending visual technique called the 'Droste Effect'
which is based on an uncompleted lithograph that Escher made in 1956.
The maths behind the lithograph was so complicated that Escher
was unable to finish the centre of the picture and so left it blank. "

8.7.08

Alfaiates são vestígios de um Porto que teima em existir



"O Porto ainda mantém vários sinais de um passado
em que fatos eram coisa só de alfaiate. (...)"



Há mundos apaixonantes. Este é um deles. E gostei muito de o trabalhar.
Aqui fica.

22.1.08

Sophia de Mello Breyner: O Nome das Coisas

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

No mês de Dezembro a RTP2 ofereceu aos mais atentos uma prenda de extremo bom-gosto: Três documentários dedicados a "outros tantos nomes incontornáveis da literatura portuguesa". Herberto Hélder, Camilo Pessanha e Sophia de Mello Breyner Andresen foram os grandes visados. Apesar de ter perdido um (Camilo Pessanha) penso que posso afirmar que estes documentários foram dos trabalhos de maior qualidade que tenho visto ultimamente. Contaram histórias envoltas na beleza das palavras de cada um destes nomes e sempre com muito respeito pela obra.
Consegui "O Nome das Coisas" da Sophia. Aqui fica. Vale a pena ver e rever.

Realização: Pedro Clérigo
Produção: Panavídeo / RTP

15.1.08

Boca de Cena: Teatro-Jantar

Menu
Sopa trágica
Espetada de vegetais baby
Arroz exótico em cama de abacaxi
Delícia de frutos suspensos
Café

Bolo da paixão

É uma sugestão que custa 20€ mas que proporciona uma experiência inesquecível. O Teatro de Marionetas do Porto comemora o vigésimo aniversário com uma festa dos sentidos. Aqui assiste-se a um teatro ajantarado ou antes a um jantar dramatúrgico nos claustros medievais do Mosteiro de São Bento da Vitória. Enquanto saboreias um copo de vinho branco és interpelado por uma marioneta "ké fró?". Pode-se fumar e falar ao telemóvel, conhecer a história do leitão da bairrada, ver a construção de uma marioneta, receber festinhas e deliciar-se com um novo método para chamar os empregados (bandeirinhas). É um teatro em que o público é actor. É um jantar de quase três horas onde, no fim, mantêm-se conversas animadas com os vizinhos e senhores avós corrompidos pelo vinho.
Vale muito a pena. Não se trata de uma peça de teatro em si mas de momentos únicos e de acordo com os vários momentos do jantar. A comida também é óptima e já não falo do vinho. Aumentaram as sessões até 3 de Fevereiro. Tem estado sempre esgotado, por isso, não percam tempo e vão ver!

A este propósito vejam a galeria de fotos do Público (20.12.2007 - Boca de cena: Teatro-Jantar)

Mosteiro de São Bento da Vitória
Até 3 de Fevereiro
Terça-feira a Domingo, 21horas

11.10.07

"Tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte."

"Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase do Hemingway,
quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta foi: «Outra puta.»
Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança.
Uma amiga, que é minha médica, disse-me:
«Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho.
Não tenho de viver com um filho da puta. Eu não vivo
com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele."

"Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau.
Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros."

7.10.07

Se aquela rua fosse minha...

Se aquela rua fosse minha...

Ver a Baixa repleta de gente é comovente.
Logo, uma iniciativa como esta só pode ser de louvar.
No entanto, penso que tudo poderia ter sido melhor aproveitado.
Esperemos que, para o ano, com mais financiamento, este dia se torne
um marco cultural na cidade Invicta.
E viva o Almirante Cândido dos Reis.

3.10.07

Paulo Ribeiro num universo masculino

(foto: JPN)

Numa conversa entre homens, futebol é um dos temas mais esperados. Em Masculine, ainda o espectáculo não começou, ainda o público não se sentou, e já as quatro personagens estão em palco: recebem o público com uns ‘toques na bola’. Exercícios de aquecimento?! “É mais uma ironia… talvez demasiado óbvia!”, afirma Paulo Ribeiro, o autor desta viagem pelo universo masculino.
Este mundo é um cruzamento de ritmos e estilos. Textos de Fernando Pessoa entrelaçam-se com histórias pessoais, poemas declamados vivem no timbre das canções, corpos que dançam Bolero num duelo improvisado entre Ravel e Zappa. É um palco onde tudo pode acontecer.

Paulo Ribeiro confiou esta missão a três dançarinos - Peter Michael, Romulus Neagu e Romeu Runa- e a um actor – Miguel Borges. Uma escolha propositada para uma peça em que os textos tinham de ter outra vocalização. No entanto, neste “espaço de liberdade” há muitos géneros a desenvolverem-se e, por vezes, a dança surge em segundo plano. Há o risco da atenção do espectador ficar retida no humor cúmplice de cada gesto dos intérpretes.
Neste limiar permanecem as vontades dos dançarinos-actores. Entre as gargalhadas do público, percebe-se que é desta forma que se constroem novos caminhos artísticos e se prevê o futuro. No final, há a bola que, do céu, cai no palco. “Tem a ver com esta questão dos ciclos… o de passar a bola e continuar”.


Este mês, no JUP: um dos trabalhos que mais gostei de fazer desde sempre.

25.9.07

À Paula Rego



Porque todas as homenagens lhe devem ser feitas... em vida.

1.7.07

Do mundo... o resto


"Nenhum relato de um sonho pode transmitir a sensação de sonho: o misto de absurdo, surpresa, espanto.
Aquela sensação de se estar prisioneiro do inacreditável
a
verdadeira essência dos sonhos."

Joseph Conrad, Heart of Darkness

Não foi sonho aquilo que vimos.
Na passada quinta-feira embarquei numa viagem teatral, em resquícios do FITEI. Sabia que o que nos esperava seria algo invulgar. Dois actores, três espectadores, um táxi em andamento pelas mais variadas ruas do Porto. Numa reportagem dizia-se que eram ruas escuras e algo duvidosas. Entrei no táxi num misto de apreensão e desejo. Desconhecia quem era aquele gentil senhor que me ladeava mas encontrei conforto numa outra impressão digital. Senti as minhas costas acomodadas nos estofos confortáveis daquele Mercedes-em-forma-de-taxi e esperei.
O cigarro terminou, ele entrou de expressão fechada. As imitações transparentes dos Ray-ban pareciam-lhe dar o perfil de taxista pretendido. Mas não somente. Enquanto arranjava as mangas da camisa ouvia-se:

Bem vindo ao Resto do Mundo! Este espectáculo consiste num percurso com a duração de uma hora
e decorre nas ruas da cidade do Porto. Por razões de segurança é expressamente proibido registar
qualquer tipo de imagens ou sons durante o percurso. Não abra as janelas do automóvel. Não abra as
portas do automóvel. Não abandone o automóvel a não ser numa situação de emergência. Fora do
automóvel não nos podemos responsabilizar pela sua segurança. Vamos dar início ao espectáculo.
Por favor coloque o cinto de segurança. Por favor desligue o seu telemóvel. Boa viagem!”


Outro misto de surpresa, espelhado no meu sorriso nervoso. Arrancámos. Vimos os Aliados a ficar para trás e tentei adivinhar o caminho. Sem sucesso. Até que começou. Falou-nos de um homem do mar com o dom da palavra e histórias sem fim. Um homem como poucos, talvez. Já quando esses pensamentos se cruzavam com nostalgia e a nossa ânsia de saber quem seria esse homem roçava o insuportável, eis que...

"Calma. O que é preciso é calma."

Disseram uns novos olhos azuis, que não se desviavam das nossas órbitas. Era Marlow e falou-nos de Kurz e das suas histórias errantes por noites negras e tribos violentas. Histórias fantásticas, enfeitadas de mistério que seguiam a mestria de Joseph Conrad.
Marlow partiu de uma recordação de um taxista para se fazer nosso presente.
Foi nesse presente que já se fez passado que vimos... Conhecemos um Porto escondido, um Porto apagado. Um Porto onde a luz não chega, onde o Douro não corre, onde o que escorre não é Vinho do Porto. Onde o sotaque nortenho não se ouve... Antes um silêncio que se sente à medida que te moves.

"Em O Resto do Mundo atravessamos a zona oriental do Porto, onde se cruzam autoestradas e
quintais, bairros sociais degradados e amplas alamedas arborizadas. No Azevedo, a cidade para lá da
circunvalação, zona rural que ninguém acredita que seja ainda Concelho do Porto, tropeçamos em
hortas e caminhos de terra batida. Muitas das portas das casas escondem ilhas sem as mínimas
condições de habitabilidade. Praticamente não há transportes nem emprego.
As vias rápidas da cidade

funcionam aqui literalmente como muros; não há quaisquer acessos. Nos Bairros do Lagarteiro, do
Cerco do Porto e de São João de Deus encontramos um quotidiano marcado pelo desemprego e
abandono escolar e ainda pelo consumo e tráfico de droga.
São centenas de famílias em urbanizações construídas como guetos,
por onde o resto da cidade nunca passa. Em São João de Deus os prédios semi-demolidos
desenham um cenário de guerra a 5 minutos das luzes da Avenida Fernão de
Magalhães e da novíssima centralidade do Dolce Vita e do Dragão."

Senti que aquela janela do Táxi era a única coisa que me separava deles. Dei razão a Rosseau e uma frase ecoou...

"O homem é naturalmente bom,
a sociedade é que o corrompe."

Não foi sonho o que vimos. Foi uma realidade, na qual tivemos a sorte de não nascer. Ali vivem pessoas em prédios sem luz, onde as portas e as janelas estão vedadas com tijolos. No escuro, distinguem-se sombras de pessoas, vê-se movimento, lê-se nas entrelinhas.

No fim, caminhamos e discutimos a verdadeira realidade. Viste-nos como insensíveis, eu como indiferentes. Porque, apesar de tudo, continuámos a olhar para aquele mundo com um vidro de táxi a separar-nos. Hoje penso que o mundo nos torna indiferentes, ou antes, impotentes.
O que é certo é que a morte, a pobreza, a guerra não se encontram apenas em África ou no Líbano. Estão à nossa porta...
Esta não foi apenas a melhor peça que eu vi por ter escapado de todo o lugar-comum (salvo seja) do teatro. Fez-me lembrar de uma parte de mim que eu julgava esquecida.

"Quem faz este percurso não acredita que está no Porto. Quem por aqui morta também não. Quando saem do seu bairro as pessoas dizem "vou ao Porto". Mas o Porto nunca vem a estes bairros. A cidade ignora-os. A cidade tem medo deles. Um dia o medo e a ignorância vão engolir-nos a todos"

O Resto do Mundo, uma criação Visões Úteis

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