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22.4.11

à espuma dos dias




"Na vida, o essencial é fazerem-se juízos a priori sobre tudo. Com efeito as massas erram, como é evidente, e os indivíduos têm sempre razão. A tal respeito, é forçoso abstermo-nos de deduzir regras de conduta: para serem seguidas não devem ter necessidade de ser formuladas. Só existem duas coisas: o amor de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, porque o resto é feio (...)."

Boris Vian
prólogo de "A Espuma dos Dias" (1947)
tradução por Aníbal Fernandes
André Kerstész
"Lost Cloud" (1937)
Woodkid
"Iron"

19.2.09

Futuro primitivo (Sou Fujimoto)


Sempre desvanecidos os dois diante de nós, aniquilados.
A violência deixa-a, ela cede à ternura.

ELA. - Vejo que tem quinze anos, que tem dezoito anos. (pausa) Que voltou de nadar, que sai do mar traiçoeiro, que se estende sempre junto de mim, que escorre a água do mar, que o seu coração bate depressa por causa das braçadas rápidas, que fecha os olhos, que o sol é forte. Olho-o. Olho-o depois do medo atroz de o perder, tenho doze anos, tenho quinze anos, a felicidade nessa altura podia então ser guardá-lo vivo. Falo-lhe, peço-lhe, suplico-lhe que não volte a tomar banho quando o mar está tão forte. Então abre os olhos e olha-me sorrindo e volta a fechar os olhos. Grito que tem de mo prometer e não responde. Então calo-me. Olho-o apenas, fito os olhos sob as pálpebras fechadas, não sei ainda nomear este desejo que tenho de lhe tocar com as mãos. Afasto a imagem do seu corpo perdido nas trevas do mar, flutuando nas profundezas do mar. Só vejo os seus olhos.

Longo silêncio.

ELE. - Sabe, não consigo suportar a ideia desta partida.
ELA. - Também eu a não suporto. (pausa)Somos semelhantes perante a partida. Sabe que é assim.

[Goldberg, Mansfield.TYA, Duras]

4.1.09

pessoa, blonde redhead e cesariny



XIX

muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só movimento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos

(estado segundo, in Pena Capital, Mário Cesariny)

1.12.08

Dream is Destiny

"Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodasse melhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender uma cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insectos que não há, talvez que nos uníssemos, a coberto do escuro, em coitos tão tristes como as noites de Lisboa, quando os neptunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo e passeiam nas praças vazias ansiosas órbitas ferrugentas. Talvez que finalmente me falasse de si. Talvez que atrás da sua testa de Cranach exista, adormecida, uma ternura secreta pelos rinocerontes. Talvez que, palpando-me, me descubra de repente unicórnio, a abrace, e você agite os braços espantados de borboleta cravada em alfinete, pastosa de ternura. Compraríamos bilhetes para o comboio que circula no Jardim, de bicho em bicho, o seu motor de corda, evadido de um castelo-fantasma de província, acenando de passagem à gruta de presépio dos ursos brancos, tapetes reciclados. Observaríamos oftalmologicamente a conjuntivite anal dos mandris, cujas pálpebras se inflamam de hemorróidas combustíveis. Beijar-nos-íamos diante das grades dos leões, roídos de traça como casacos velhos, a arregaçarem os beiços sobre as gengivas desmobiladas. Eu afago-lhe os seios à sombra oblíqua das raposas, você compra-me um gelado de pauzinho ao pé do recinto dos palhaços, bofetadas de sobrancelha para cima que um saxofone trágico sublinha. E teríamos recuperado dessa forma um pouco da infância que a nenhum de nós pertence, e teima em descer pelo escorrega num riso de que nos chega, de longe em longe e numa espécie de raiva, o eco atenuado."


(in Os Cus de Judas, António Lobo Antunes)



Grails - Silk Rd

13.11.08

O Meu Inferno em Guantánamo

"Quando regressei à gaiola, não acreditei nos meus olhos: havia um novo prisioneiro na Charly-Charly-1, dentro de uma gaiola que até àquele momento tinha estado vazia. Era ainda novo, talvez da mesma idade que eu, teria 19 ou 20 anos. Estava deitado no chão e emitia uns sons baixos. Não estava a chorar, mas pensei que estava a ouvir uma coisa parecida com uma melodia, uma triste canção árabe. Já não tinha pernas. As feridas eram muito recentes. (...)
Quando os guardas apareceram para o levar para o interrogatório, ordenaram-lhe que se sentasse de costas para a porta e pusesse as mãos sobre a cabeça. Quando abriram a porta, precipitaram-se lá para dentro como sempre faziam: empurraram-lhe as costas e obrigaram-no a deitar-se, depois prenderam-lhe as mãos e amarraram-no, de maneira que ele já não se podia mover. Abdul gritava com dores.
Por que é que estavam a fazer aquilo? Ele já não tinha pernas, e talvez pesasse quarenta quilos. O que lhes poderia ele fazer? (...)
O estranho era que, embora tivesse sofrido dores inimagináveis, ele era uma pessoa muito contida. Apesar do seu péssimo estado, interessava-se pelos outros. Quando o IRF-Team lhe batia, nunca chorava. Mas quando via outros prisioneiros a serem espancados nas suas gaiolas, então chorava. Chorava alto. Tinha compaixão, embora ele próprio estivesse a ser tratado de um modo tão desumano. Depois foi mudado para outro lado e nunca mais o vi. "
(in O Meu Inferno em Guantánamo, Murat Kurnaz)

29.10.08

António Lobo Antunes fala de Arquipélago da Insónia

"Se a gente quer escrever livros a sério tem de aspirar ao silêncio
e encher os livros de silêncio."

(eu sei que hoje estou a abusar e que o blog nunca viu tanto post,
mas pronto, vale a pena)

28.10.08

On the road


"If you read On the Road, it's a valentine to the United States," he says. "All this is pure poetry for almost a boy's love for his country that's just gushing in its adjectives and descriptions. You know, Kerouac used to say, 'Anybody can make Paris holy, but I can make Topeka holy.'"

10.3.08

Alice, és turva

"Compor do amor esgota as palavras, sempre os mesmos medos anfíbios, as mesmas recusas de côdea crua. O rosto dividido em vários semblantes, a mesma dor aguda picada sobre as úlceras. De lua contrafeita no vaivém de nuvens pardacentas, o berço da noite assenta sobre o orvalho como uma maquinaria de sonhos. Boa noite meu amor, encontro-te difusa na minha boca como uma úvula de campânula. Boa noite meu amor, ainda há um lugar incerto entre a aura do teu alento e os meus braços. Escrever pelo amor estanca nas palavras. O gelo da sanha, a mágoa segregada na bainha das feridas. Sobra o corpo encaixotado nas talas de madeira, a saudade mastigada sobre o pus da gangrena. De lua inerte no desvão negro das trevas, o cerrar da noite transparece no céu a quilómetros de distância. Boa noite meu amor, demoras-te no embargo calado da ternura, permanecem as flores lodosas do teu Inverno. Boa noite meu amor, que o amor não me permite desejar-to de coração livre. Boa noite meu amor.

Dizer-te o quanto desfaleço na tua ausência seria sentenciar-nos à
incoerência deste mesmo amor."
(in Férreos Transversais, Alice Turvo)

Alice nasceu num sábado de sol. Alice é Turvo, é Férreos Transversais, é palavras escutadas, é um hino ao amor. Mas para mim é mais que isso.

No entanto, estas palavras dela são hoje para ti.

11.10.07

"Tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte."

"Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase do Hemingway,
quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta foi: «Outra puta.»
Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança.
Uma amiga, que é minha médica, disse-me:
«Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho.
Não tenho de viver com um filho da puta. Eu não vivo
com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele."

"Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau.
Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros."

24.4.07

Ainda do Dia Mundial do Livro

'O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).'

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

7.4.07

[Faixa III] A Naifa . Todo o amor do mundo não foi suficiente



todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve
[de nada. ficaram só
os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e
[da morte.
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram
[suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como
[lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em
[cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo
[quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo
[antes de a foder.

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas


Saí do café com aquelas palavras na cabeça. 'todo o amor do mundo não foi suficiente.' Discordava e discordo. Para mim, todo o amor do mundo será suficiente para praticamente tudo. Mas aquelas palavras naquele livro envolviam-me, transportavam-me. Encaminhavam-me para casas desertas com chão velho e cheiro a mofo.
Entro no carro e ouço aquelas mesmas palavras cantadas. A Naifa fez-me parar o carro para pegar no livro que descansava no banco de trás.
E é isto que se ouve nesta música. Um poema de José Luís Peixoto, brilhantemente interpretado por uma das melhores bandas portuguesas dos últimos anos, na minha opinião. Noutro dia, enquanto esperava pelas notícias na TSF, ouvi um senhor bem ilustre de cujo nome já não me recordo (seria o maestro José Mário Branco?) que dizia que o fado era belo pela sua simplicidade e que não havia motivo para alterar a sua essência com outros tipos de sonoridades. Discordava e discordo. O fado é fado sempre. Mesmo com todo o tipo de arranjos, sentimos fado na voz, na guitarra, no ambiente. Aliás, esses arranjos até podem trazer público, modernizar, fazer a música evoluir. Daí que goste tanto d'A Naifa. Além da belíssima voz da menina Maria Antónia Mercedes, contam com o génio de Luís Varatojo e João Aguardela no baixo e na guitarra portuguesa, respectivamente, com letras incríveis e uma pós-produção fabulosa. Não diria que são o 'novo fado' porque isso não existe. Mas que são portugueses, ai isso são. E sabem o que fazem. Exemplarmente.

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