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28.12.08

La Parade


*

Encerro no interior das pálpebras as imagens que insisto tactear.
Teimo em existir nas entrelinhas dos lábios que despejam promessas no chão.

Promessas ao chão.
Promessas de chão.
Desenho um cadeado inventado que disfarça a ausência da segurança dos teus braços.
Aqui diluo os perfumes e sabores que sempre foram meus.
Não acredito que a parada de emoções termine depressa.

Hoje toquei piano e todas as frases se tornaram
difusas, incoerentes, sem seguimento.

Só pontos finais.
(*Yann Tiersen ft/ Lisa Germano - La Parade)

27.12.08

"Merece tanto assim a tua vida?"

Tento abandonar-te no fim das escadas de cartão, em que fabricava partidas e destinos. Regresso à necessidade de criar palavras para contar estas quimeras ásperas e cruas, sem tradução narrativa, mas com tradição ocular. Hoje emudeci. Com o silêncio a sentir tudo isto. Um ditongo, preso na corda da língua, enrola e encaracola, chega baixinho neste sussurro que parte da pele e irrompe pelo íntimo torpor das tuas carícias. A janela do comboio não tem reflexo nem transparência. Quando duas mãos já se conhecem também não precisam de observações, ilações fugidias, jogos de cruza e descruza, de mói e remói, de aproximar ou distanciar. A janela do comboio continua sem reflexo. Com cada palavra a sentir tudo isto. Com cada dia a sentir tudo isto. Sabes que este cigarro, que tenta fumar o passado, arrepia, lembra, recorda. É penoso e duradouro. Questiona.

Será que mereces tanto assim a minha vida?

6.4.08

6 de Abril de 2008

O telemóvel tocou de mansinho. A Sushi desatou a correr, irritada. Não gosta que a acordem assim. Abri os olhos devagar e estiquei a mão para o telemóvel. "Nasceu a Simone. É uma bonequinha!", dizia a minha irmã. Pela cabeça passaram-me os quatro dias semelhantes a este. Os dias do nascimento do Sebastião, Mateus, Carolina e Gabriel. Nenhum foi igual mas, em todos, o meu sorriso foi o mesmo. Dançava com as batidas do coração.

A Simone é cor-de-rosa e resmungona. Tem dedos delicados e as unhas enormes. Tem os lábios-coração da família. Espirra e gosta de mamar. Para já ainda não falamos muito. Gosto do cabelo dela. E ela apertou-me o dedo.
Há algo de incrível na maternidade, em ouvir as histórias das minhas irmãs sobre estes dias. Hoje foi o primeiro dia daquele pedaço de céu cor-de-rosa. Ainda ontem estava guardada do mundo. Acho que o que mais me assusta na maternidade é a responsabilidade. A Simone vai ser o centro do mundo dos pais e eles vão ter de saber tudo e sofrer e rir tanto. Ela vai ser o mundo e nem sabe. Esta dependência. É tão bonita.


Aos poucos também consigo aguentar a responsabilidade de sorrir. Consigo pegar no carro e com o meu Arquipélago de Gulag e a PJ Harvey nos meus ouvidos pedir uma cerveja sem me sentir extremamente deprimida. O pior das dependências é que, quando algo falha, tudo muda drasticamente. Há uma nova aprendizagem. Tal como a Simone vai aprender a falar, eu vou ter de aprender a não me sentir temerosamente mal ao ouvir a One Line.

























sem asas de outro abraço encaminho-me para este canto bravio e gelado. sei que este lugar ainda te pertence. se fechar os olhos consigo percorrer o teu corpo na escuridão da minha mente. levo a mão ao peito. ainda bate. posso pintar histórias na tua mão? desenhar um mapa de nós nas tuas costas para o decorares num espelho, sem partir. 7 anos? sempre. entende que os meus sorrisos são glaciares de amor gelado com o propósito de manchar a cama onde te deixo. não entendas que são cartas de audácia maior que combatem a dor e a diáspora de emoções quando as tuas três pedras me tocam. com a lembrança dos teus lábios lacrimejantes na minha pele chega um arrepio na nuca. vais seguir o que digo ou o que eu sinto?

"não tens que ser bonita o tempo todo.
e não deixas de ser bonita porque algo é mais forte que tu e fere-te."

A Simone nasceu.

17.1.08

do domínio das palavras ou a vontade de escrever o Indescritível

O domínio das palavras é delas próprias. Repito isto incessantemente para não me esquecer. Não sou eu que as domino. Elas ganham cor, luz, movimento e corpo. São de carne e sangue, esgotam-se nas páginas e nas bocas das pessoas. Resistem nos ouvidos e perscrutam as meninas, dos olhos e dos homens, recordando tudo aquilo que escapa ao esquecimento. Mesmo que abandones as pálpebras consegues distinguir os contornos das palavras naquele escuro que pode não ser apenas preto se fechares os olhos com força.


Queria-te escrever mas acho que te prefiro pensar. O domínio das palavras não me pertence. E para te pensar não preciso de as usar. Percebes?

23.9.07

Silencias-me nas noites


Silencias-me nas noites.
Naquelas em que fico acordada a desenhar-te com pensamentos.
Noites em que nem sempre sei o que dizer quando te olho.
Noites em que o silêncio é a melhor palavra. O silêncio que diz tudo.
Basta o silêncio.
Reconheço que as linhas que recorto do teu rosto não são reais.
Talvez se aproximem vagamente da realidade.
- A beleza nunca é real. É sempre produto subjectivo dos sentidos. -
E aquela vontade de te saber de cor.
Fecho a porta e espreito pela fechadura.
A timidez inicial continua, passado tanto tempo.
O desejo é subentendido; torna-se incomensurável.
No fim, vão ser duas mãos entrelaçadas, no encalço dos sorrisos opostos.
Os meus lábios com a tua impressão digital.
Páginas de um diário de bordo em construção.

11.3.07

Na noite em que perdi a carteira...

deixei as palavras correr. Escorreram-me pelos lábios em direcção ao chão. Em queda. Curvei-me para apanhar cada letra e construí um discurso, uma história. Outra história.
Abandonei-me perto daquela árvore. Fiquei encostada nela durante muito tempo. Ouvi a pulsação, o éter da vida que tudo tem. Em harmonia, deixei o meu coração bater, antes de o espetar num ramo. Só aí fechei os olhos e respirei pela primeira vez.
deixei as palavras correr. O sangue escorreu pelos lábios em direcção a ti. Estavas de olhos fechados, ausente. Não me viste a esbracejar, a cortar o ar com gritos. Apertei-te a mão contra espinhos de rosas; apertei-te a mão contra o espigão da árvore; apertei-te a mão contra mim... e aí doeu mais. A ti.

deixei as palavras correr e agora escondo-me atrás do muro. Vejo uma flor, breve e serena, a nascer. É tímida ainda e não tem pressa de viver. Invejo-a. Sei que amanhã vou voltar aqui e vou encontrar outra mão, despida, desenquadrada deste jardim. Vai ser essa mão que vai plantar uma nova árvore para mim. Podar os ramos, escolher as sementes, levar-me ao hospital. Não vou ver luz porque não preciso. Não vou falar porque não tem sentido. Vou deixar as palavras correr, perder metade de mim, dançar contigo pela noite, roubar momentos que são meus e vou-me encontrar, mais tarde, ao virar da esquina. Quem sabe... talvez me dirija um olá. Ou, simplesmente, vou fingir que nem me vejo.

28.2.07

Sentimentos em cartas

Hoje, todo o dia, a mesma discussão: relações. O mesmo pensamento: Porquê?

Sei que não compreendo muita coisa. Não compreendo os círculos concêntricos que o impacto de uma pedra na água provoca. Não compreendo o facto de dar tanta importância à voz de cada pessoa. Também não compreendo a maioria dos seres humanos.

E nisto, eis que olho para ti e vejo-me. Sei que sou a pessoa com mais sorte do mundo por ter esta cumplicidade, esta entrega, este momento. Ter a certeza, a noção absoluta de que não te quero mal. De que tu não me queres mal. De que estou nua a teus olhos, pelas e perante as tuas palavras. Isso não me fere, não me enfraquece. De facto, é essa certeza que me torna forte, a par e passo.

Noutro dia falava de cartas. Cartas de amor, cartas à mão, com marcas de lágrimas e de romantismos falseados, com caligrafia desajeitada e um papel amarrotado. Sinto que as pessoas evoluíram como estas cartas. Tornaram-se electrónicas, fugazes, rápidas. Telegráficas, urbanas, realistas. Independentes, num só canal, numa só via, Maquiavéis de novos tempos.

Mas, afinal... não é o conteúdo que faz uma carta? E uma pessoa? E uma relação?

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