30.1.09

Se dependesse de mim




Matizava cada traço do teu rosto com manchas enternecidas de paixão. Alcançava a figura de sombras que se abandona no meu peito e escrevia em cada pálpebra todas as palavras que devem ser ouvidas. E retidas. Recordava-te que a ânsia com que me recolhes de mim e te recolhes de ti não é ilusão de luz, cor ou pétalas de flor-de-lis, num qualquer espaço habitado por Morfeu e solidão atípica. Se dependesse de mim os relógios não teriam ponteiros ou dígitos em sintonia com a hora do outro lado da fronteira. Não existiriam reflexões, antecipações, considerações. Se dependesse de mim ainda tornar-se-ia agora, a hesitação criaria mundos, o suspiro seria um gemido sereno que ressalta nas têmporas até se enrolar na minha língua com destino a governos ocultos e sufocados. O condicional da existência que me tira o sono é um pequeno caminho para o trato que as tuas mãos consagram, ao despir-me e arrancar-me de percursos escutados que já não chegam até mim.
Se dependesse de mim não estaria aqui.

[Henri Cartier-Bresson + Mazzy Star]

2 comentários:

Frambú disse...

se
~~~~~~~de~~
~~~~~~~~~~~~vez

~~~~~~~~~em~~~quando

~~~fosse~~~~~~~sol
~~~~~~~~~~~~

indigo des urtigues disse...

E por momentos aqui fico...a ouvir esta música sem conta...

beijo...

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