25.12.10


"Era eu um rapaz de catorze anos, e não sabia quem era"


in Os Mistério de Lisboa, Camilo Castelo Branco

21.12.10

haikucubes


all spiral love
dancing over salty flesh
smooth water whispers

2.12.10



So words rise while I touch the sky
Won't stay long
Just passing by
But you talked it away
You talked it away

18.10.10

3.10.10

o primeiro livro que me ofereceste era do cesariny



voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal



two people who identify as transgendered in bed

video



(* Aqui deve aparecer um vídeo. No Chrome funciona. É favor avisar a gerência caso se verifiquem anomalias)

12.8.10

A ler

Homossexuais no Estado Novo
São José Almeida



"Almeida traça a história da homossexualidade em Portugal entre 1912 (ano da Lei sobre a Mendicidade) e 1982, quando entra em vigor o novo Código Penal (de que foram eliminados os artigos 70º e 71º, referentes àqueles que "se entreguem habitualmente à pratica de vícios contra a natureza"). A autora mostra como a homossexualidade é a "sexualidade transgressora numa sociedade patriarcal", sublinhando dois eixos no contexto português: um referente à "diferença de classe social, a diversidade de tratamento para quem é das elites e das aristocracias do regime e para quem é do povo"; e outro relacionado com os não-ditos, os silenciamentos, a "inexistência de uma identidade" que permita uma noção de comunidade, "partilha de grupo", comum durante estes anos. Ouvindo um número considerável de testemunhas que contam, em primeira mão, as suas experiências vividas sob a ditadura, São José Almeida demonstra os dois pesos e as duas medidas do regime relativamente aos homossexuais (das elites e das classes baixas), tendo em conta como a "repressão e a exclusão social a que estavam votados no Estado Novo levavam a que a sua vivência - em que a sexualidade ocupa um lugar central, como em todas as pessoas - fosse relegada para uma semi-clandestinidade, uma espécie de submundo, muitas vezes identificados como os 'bas-fonds' e o crime."'


O terceiro sexo de Juchitán
Alexandra Lucas Coelho, em Juchitán

Foto: Um Shaul Schwarz/Corbis
















Um santo vinha com um saco cheio de gays, a distribuí-los por vários lugares. Em Juchitán o saco rasgou-se, eles caíram e ficaram todos ali. Esta é a lenda da cidade onde os gays são uma instituição, uma bênção e uma festa. Mas a violência está a chegar.

in Público, 09.08.2010

5.8.10

afinal, és como o vinicius



É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

"Dialética"
Vinicius de Moraes
+
Brian Labrecque

31.7.10

p'ró caralho, com esta merda toda.

23.7.10


it gets lonely early, doesn't it?

21.7.10

another day





"Um dia", disseste-me.
Juro que te matei.
No bico, a andorinha trouxe a Primavera
(acho que estou de olhos fechados desde aí)

 simoneguillaume
this mortal coil

18.7.10

23 - finalmente tenho uma justificação para meter esta música aqui




23 seconds, all things we love will die
23 magic, if you can change your life

11.6.10

ao que não é espera
















Não há nada de novo neste acto. Não há cigarros significativos, nem resfolgares tardios de razão. Esperar-te é querenar o desejo de esconder nos meus braços as amarguras de um dia. É saber-te perto, querer-te perto, ansiar-te perto. É ter o privilégio de guardar tempo apenas para imaginar-te a descer a rua, ergueres os óculos, acarinhares a cidade. Destina-se a ti, não é espera. É vontade de te receber depois de um dia como este.

Daqui a pouco, num suspiro, vais entrar no carro para devolveres ao meu olho direito as faúlhas que hoje tardaste em desviar. Só vou fechar os olhos quando te estender um embrulho e escutar - "para mim?". Só vou fechar os olhos quando, baixinho, me disseres: "vamos para casa". 

adivinha



... ouvindo a repetição das sentenças da donzela Teodora, que enumerava os rigores da mulher perfeita

- larga em três sítios, estreita em três sítios, branca em três sítios, negra em três sítios, alta em três sítios, pequena em três sítios.

A Sibila [1954]
Agustina Bessa-Luís

10.5.10

a falta


tanto tempo casta
tanto tempo apenas
admirada, nunca
amada, agora
presenças transparentes
me atendem
de dia impaciente
conto as horas
que impedem tua chegada

virás como sempre
trajando o manto
do homem invisível
de noite vens velar
o pranto previsível
promessas leves
que a dor é breve
preliminar do amor
que me atravessa

no reverso da língua
que lambe a mão
e sorve o leite
surde o azeite
que queima o dorso
do corpo ocre

o atirador
rechaça a corda
do arco terso
a flecha
corta.

Psyché a Eros
Margarida Vale de Gato
[+ Elaine Constantine]

27.4.10

Que bom encontrar isto hoje



Os homens são uns parvos. Não se conseguem entregar por completo ao amor. Têm sempre o trabalho ou outra desculpa do género. Preocupam-se com o que não estão a fazer. Para eles o amor pode ser um inimigo. Um inimigo há muito derrotado mas do qual ainda têm medo. As mulheres são diferentes. Para elas o amor nunca é demais. Não atrapalha. É que não conseguem viver com uma alma só para elas. Por isso entre um homem e uma mulher há muitas vezes só uma coisa parecida com o amor, entre duas mulheres pode acontecer o amor inteiro. Basta ver duas mulheres a olharem-se nos olhos.
Isto são teorias. Convém ir às coisas mesmas. As palavras dela.
"O amor é incorrigível como o sol de pé e eu amo-te como o mar e a areia se deitam juntos. Nas praias interiores há uma ciência certa: as tuas ancas violentas, o teu cabelo frio.
É o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados e os arquitectos afirmam ser preciso edificar um lugar novo para duas pessoas que estão a pensar tanto há tanto tempo com os corpos. Ouve-se só a água a atravessar a delicadeza da terra, é difícil acordar. Sais e entras pelas estações e os animais acompanham-te e eu digo que é o vinho, a metamorfose, que usamos de uma arte insensata, que comigo emigras na minha voz.
É por um nome estrangeiro que te dás enquanto ao longe o meu me escapa. É preciso chamar-te quase sem voz, estás despida escutando-te a ti mesma, descoberta. Eu sou a vítima caminhando, a minha boca impressa na doçura da tua boca, sem saber como fazer, dada à beleza repentina, inspirando o louvor. Os animais vêm comer às nossas mãos no silêncio intenso das montanhas, as noites trocadas e no meio há um espelho em que o amor se vê, aparecendo e logo indo. Enquanto permanecemos quietas, sem nada entender, uma criança anda pela terra de camisa branca aberta, desabotoada.
Sempre que penso em ti avanças em desordem no ar, e a minha memória aflita tem pressa de te alcançar, o sangue tem pressa em correr, e antes de alcançar tremo, sinto pavor em chegar. O meu coração é a criança a correr para ti e tu desapareces no interior da minha respiração, de uma dança elevada à solidão que faz arder o vento atrás de si. Sempre que penso em ti rogo pela ressurreição do tempo, pela subversão dos dias.
Meu amor, há pressa de chegar à alvorada, ser água a correr. Os animais estremecem e dormem mas eu não mais terei sono e vou despir-te tão lentamente como se tece o tecido de uma estação, os dedos a arder na doçura negra dos teus cabelos. E à volta tudo se ergue e respira e a criança passa à sombra do teu vento e fico nua numa vertigem que me sabe a sal e a mar a escutar os ruídos do amor, as duas mãos cegas atadas ao peito.
O que de ti guardo é um lenço de pétalas encostado ao rosto e o meu coração minado pelo bater das próprias pancadas, o teu corpo em silêncio pousada na delicadeza da geometria perfeita. Depois seguimos até ao fim deste tempo desperdiçado. É monstruosa a candura com que avanças, a tua mais secreta beleza, a tua mão de mulher a agarrar a minha camisa de menina.
Onde estás? A água dobra-se para que passes, as tuas ancas, o teu sexo imprimem-se na areia, voltas o rosto e perguntas: o que é?, e as palavras precipitam-se. As pessoas podem morrer por muito tempo, tu acreditas nisso. E depois podem voltar. Uma alma pouco é, duas almas são um mundo e caminhas quando te persigo a teu lado e me esqueço do meu nome, a minha boca queimada e sei que desapareceste de repente por detrás das colinas, sobre a água. Alguém vem dizer que tenho a mão direita sobre o teu coração tão branco e que também se morre de contemplar a morte, que além de grandioso é íngreme o paraíso.
É então que partes. Nesse instante, meu amor, anjos cegos cantam a minha morte. Vejo a luz que chega estrangulada ao lugar de uma paixão terrível. Partes e a tua despedida grava-se para sempre na areia, as coisas em volta respiram devagar, mais lentamente, com a tristeza. Partes e escrevem-se as primeiras letras na noite antiga e a lua nasce na minha camisa desabotoada e negra e de todos os lados ouço gritos e sangue a correr nos cabelos torturados. Partes e as crianças voltam a cabeça para reparar na mortal maneira de te inclinares na partida com um beijo, a minha camisa cheia de febre. Partes, meu amor, a pancada na água, a luz encurvada.
E sorris ainda para provar que somos eternos, mas eu sei que a idade não se faz milagrosa e ficamos presas de uma imagem em perigo voltada para o terror da paixão.
A tua blusa de perfil, as nuvens a afastarem-se, as mãos ocupando-se em ter dedos - era Maio ou Setembro - bom dia meu amor, até já meu amor, até logo meu amor, até sempre amor meu. A noite segue de um lado para o outro, as colinas afastam-se para dar passagem à tua ausência, tremo de febre, viramos ao de leve a cabeça uma para a outra, ao longe, depressa, como se já dormíssemos e ainda procurássemos adormecer, os pulmões cheios de água.
No escuro a pureza mostra melhor a sua maneira de ser, a tristeza bebe-se com as duas mãos juntas. Oiço a noite chegar como uma floresta que avança. Por favor, digo eu, quero levar comigo esta morte dos pés à cabeça. E entro pela floresta onde te deixei."

Uma Pancada na Água
de Pedro Paixão
in Nos Teus Braços Morreríamos (1998)

[+ dinah washington 

3.4.10

lovers are rangers


I'll be your woman with unwavering eyes
Aflame with the spirits and the mysteries of life
The hands of a healer and a samurai
I'll be your woman and you can be mine.

16.3.10


Sei o mês exacto por medo de perder-te
Ainda. Como as viúvas indo para a missa
Cobrindo-me de luto, curva
Tão dolorosa, pondão desasteado, mendigo
A quem tivéssemos dado pão. A porção
Exacta, sei-a - eu dividi
Para dar-ta inteira - a minha vida


[Kristen Barry
+ Daniel Faria]

13.3.10

"Tudo o que faço ou medito."


O que é que já escreveste aqui?

7.3.10


Quando duas pessoas são do mesmo sentimento, não adivinham, ou pelo menos há uma delas que adivinha o que quer dizer a outra sem que esta outra o entenda ou ouse entendê-lo.
Quando amamos, aparecemos diante de nós mesmos muito diferentes do que antes éramos. Imaginamos assim que todos disso se apercebem; nada contudo pode ser tão falso. Mas pois que a razão tem a sua vista limitada pela paixão, não podemos ter a certeza, e continuamos sempre a desconfiar.
Quando amamos, persuadimo-nos de que descobriríamos a paixão de um outro: por isso temos medo.
Quando mais longe é o caminho no amor, tanto maior é o prazer que sente um espírito delicado.

[Discursos sobre As Paixões do Amor
por Blaise Pascal
+ Philip Glass]

5.1.10


Faz um ano
e
tu não sabes

1.1.10

Stephane: Hi, and welcome back to another episode of "Télévision Educative". Tonight, I'll show you how dreams are prepared. People think it's a very simple and easy process but it's a bit more complicated than that. As you can see, a very delicate combination of complex ingredients is the key. First, we put in some random thoughts. And then, we add a little bit of reminiscences of the day... mixed with some memories from the past.

That's for two people. Love, friendships, relationships... and all those "ships", together with songs you heard during the day, things you saw, and also...

[Sciende des Rêves
+ Ödland
+ "directoras de fotografia" ]

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