31.12.09

De 2009 para 2010

Dias esquecidos um a um, inventa-os a memória.
Profundamente se levanta uma bilha vazia.
Nem o peso nem a leveza nos embriaga.
O perfume a vinho, sim, uma
concavidade do sono. Os dias maciços que se
modelaram. Ou as luzes à volta do barro
onde ficam os ciclos curvamente
ligeiros.
As bilhas ao alto, entre os ombros, contra
a cara amarga, estremecendo com o sangue dos braços
e da cara. Plenas como dias enormes,
acabados. Que são agora imagens fabulosas, mútuas
translações - o escuro em torno dos espelhos vazando de uns
para os outros a sua vida
clara.


Herberto Helder
Ou O Poema Contínuo
2004

30.12.09

Eu devia fazer aqui aquilo que faço compulsivamente no Facebook.

25.12.09


I find shelter, in this way
Under cover, hide away
Can you hear, when I say?
I have never felt this way

17.12.09

Falam, e à medida que vão ficando mais à vontade falam cada vez mais. Algumas têm uma energia transbordante. Podiam estar a fazer coisas lá fora, tal como bordam minuciosamente sem olhar para os dedos.
Depois, desaparecem dentro das burqas e parece que começamos a falar com um boneco. Elas desaparecem mesmo. Aquele pedaço de pano azul mexe-se e de lá sai uma voz abafada.
Escreveu Robert Byron em 1933, quando chegou a Herat, vindo da Pérsia: «De vez em quando um capuz de apicultor com uma janela no cimo atravessa a cena. Isto é uma mulher.»
Nos anos 70 podia haver afegãs de minissaia em Cabul, mas não era assim antes, nem era assim no resto do Afeganistão.
Ainda não encontrei descrição melhor para uma burqa. Um capuz de apicultor até aos pés.

Caderno Afegão
Alexandra Lucas Coelho

15.12.09

às sextas na cave | quando o poema se cumpre


Sessão de poesia ou conversa familiar com:

- Catarina Nunes de Almeida
- Miguel Manso
- Vasco Gato


Catarina Nunes de Almeida nasceu em Lisboa, em 1982. É licenciada em Língua e Cultura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Encontra-se agora a preparar a sua Tese de Doutoramento sobre Poesia Portuguesa Contemporânea e Estéticas Orientais. Com "Prefloração" (Quasi, 2006) recebeu o Prémio de Poesia Daniel Faria e o Prémio do PEN Clube Português para a Primeira Obra. Deu aulas em Itália, na Universidade de Pisa, tendo recebido o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, em Trieste. "A Metamorfose das Plantas dos Pés", publicado em 2008, pela Deriva, é o seu segundo livro.

Miguel Manso nasceu em Santarém, em 1979. Vive hoje em Lisboa. Estudou Design da Comunicação e desenho, foi bibliotecário, vigilante de museu e viajou. "Contra a Manhã Burra", publicado em edição de autor, agora reeditado pela Mariposa Azual, foi o seu primeiro livro. Seguiu-se "Quando Escreve Descalça-se", editado pela Livraria Trama.

Vasco Gato nasceu em Lisboa, em 1978. Chegou a estudar Economia. Depois mudou para Filosofia. Actualmente trabalha como tradutor. Com um alto ritmo de produção literária, apresenta, dia 17, nas próximas Quintas de Leitura, "Cerco Voluntário", o seu último livro.

7.12.09

É isto, não é?










II.

Foi simples conhecer-te, simples tomar os teus olhos
nos meus, dizendo: estes são olhos que conheço
desde o princípio. ...Foi simples tocar-te
contra o fundo retalhado, ao arrepio de tudo o que
tínhamos sido, as escolhas, os anos. ...Foi até simples
tomarmos as vidas de cada uma de nós nas nossas mãos, como corpos.

O que não é simples: acordar de se afogar
de onde o oceano batia dentro de nós como placenta
para esta mesma particularidade aguda,
estes dois eus que caminharam meia vida sem se tocarem -
acordar para algo enganosamente simples: um copo
suado de orvalho, a campainha do telefone, o grito
de alguém espancada lá ao fundo da rua
fazendo cada uma de nós ouvir o seu próprio grito interior

Sabendo da mente do assaltante e da assaltada
como tem de saber qualquer mulher para conseguir sobreviver a esta cidade
a este século, a esta vida...
tendo cada uma de nós amado a carne na sua beleza cerrada ou solta
melhor do que árvores ou música (porém amando estas também
como se fossem carne - e são - mas a carne
de seres ainda por sondar na nossa vida mais ou menos literal).


III.

É simples acordar de dormir com uma estranha,
vestir, sair, tomar café,
entrar numa vida de novo. Não é simples
acordar para a proximidade
de alguém que nem é estranha nem chegada
em quem se escolheu confiar. Confiando, não confiando,
até este ponto chegámos, descemos mão
após mão como por uma corda trémula
sobre o que ficou por buscar. ...Fizemos isto. Concebidas
uma da outra, concebemo-nos uma à outra numa escuridão
que recordo como encharcada de luz.

A isto quero chamar - vida.
Mas não posso chamar-lhe vida até começarmos a ir
para além deste secreto círculo de fogo
onde os nossos corpos são sombras gigantes arremessadas contra uma parede,
onde a noite passa a ser a nossa escuridão interior, e dorme
como um animal, a cabeça pousada nas patas, a um canto.


1972-1974
Uma Paciência Selvagem
Adrienne Rich

30.11.09




i might be leaving soon

11.11.09

Adivinha, hoje voltei a ir a tua casa

E continuo sem saber o porquê.
De depositar palavras num marco.




19

Amanhã
Tentaremos outros lugares
Outros sítios
E outras palavras
Quem sabe mais próximas do fogo

Tentaremos sentir a pulsação e a nudez
De outros corpos
Descobriremos novos rios
Novos vulcões
E novas árvores

Mas será sempre a mesma
A árida e invencível boca
Que nos espera

José Pedro Leite
in As Mãos e o Lume

[foto Brassaï]

10.11.09

People just ain't no good




Hoje fui a todos os nossos sítios.
E despedi-me deles um a um.
Adivinha - o último voo era o de Paris.

25.10.09

Hold tight, if I'd only known it could rain inside

I'm a fighter 'till the end
Look into my eyes
It's all on fire
My life needs fire;
I want roses



[Helmut Newton
+ Mimi Goese]

14.10.09


Ouve.
Roubo.
Embalo-me.
Em ti.

Respirar-te e saber que estás no meu pulso.

12.10.09


just in case you never knew


i wanna go there yes yes i wanna show you how but i can't be the lighter i can't be the lighter just in case you never knew i can't be the lighter of your eternal flame oh! oceans, rivers, lakes that we could swim as two but i already own my own body of water you'll follow me and yes, yes i'll follow you, it's true but i'm already certain i've got good directions just in case you never knew i won't be becoming i am the beginning and i'm already done these yes days, they've come and gone not always going to make the same mistakes it's too simple, i saw the truth and truth is the terror of the one who feels their lace can be stained but i cannot stain your white lace, baby even you cannot stain your white lace baby

11.10.09

.lebenslauf.

Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.

Aufwärts oder hinab! herrschet in heil’ger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch?

Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfads geführt.

Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern’,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.


| Friedrich Holderlin
pela voz de Juliana Snapper

8.10.09

às sextas na cave | quando o poema se cumpre | 9 outubro



José Rui Teixeira é autor de vários livros de poesia e editor da Cosmorama. Publicou, entre outros, Assim na Terra, pela Quasi Edições, e, em Setembro de 2009, reuniu no livro Diáspora, editado pela Cosmorama, o que, segundo o próprio, constitui "aquilo que eu entendo ser o meu 'corpus' poético."

Filipa Leal é jornalista, locutora e colabora regularmente com o Teatro do Campo Alegre, no seu ciclo «Quintas de Leitura», integrando o colectivo poético «Caixa Geral de Despojos». Entre outros, publicou Cidade Líquida & Outras Texturas e O Problema de ser Norte, pela Deriva.

Marta Bernardes é artista plástica, performer, cantora e letrista de vários projectos musicais, nomeadamente o Projecto É grave, tendo-se estreado na poesia com o livro Arquivo de nuvens publicado pelos Cadernos do Campo Alegre.

Os autores José Rui Teixeira e Filipa Leal foram recentemente incluídos numa antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea, promovida pela revista colombiana Arquitrave: Arquitrave.

17.9.09


os teus dentes no meu braço

16.9.09

esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável

Eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-te da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu

e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.

Sarah Kane

Aqui a mais bela voz leu-o graças ao bom gosto alheio. Não poderia deixar de to dizer.

26.8.09

15.8.09

Até ao fim



Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

[.jpg manuel vason
.mp3 recoil
.doc nuno júdice]

9.8.09

mientras

Hukkle (2002) | György Pálfi



Belle de Jour (1967) | Luis Buñuel

25.7.09

"Pois"

"Her first expression was one of tension, which was not beauty. Just as anxiety dispersed the strenght of the body, it also gave to the face a wavering, tremulous vagueness, which was not beauty, like that of a drawing out of focus. (...) She was like an actress who must compose a face, an attitude to meet the day. The eyebrow pencil was no more charcoal emphasis on blonde eyebrows, but a design necessary to balance a chaotic assymmetry. (...) She must redesign the face, smooth the anxious brows, separate the crushed eyelashes, wash off the traces of secret interior tears, accentuate the mouth as upon a canvas, so it will hold its luxuriant smile. Inner chaos, like those secret volcanoes which suddenly lift the neat furrows of a peacefully ploughed field, awaited behind all disorders of face, hair and costume, for a fissure through which to explode."

Anais Nïn, A Spy in the House of Love
[+ Un Chien Andalou]

23.7.09

às vezes tenho a sensação que vivo uma vida nos meus dias contigo

pizza
pizza e mais pizza
acidente idiota
piscina
mojitos e caipirinhas
sardinhas
filmes e e!
amor e sexo
verdade e consequência
shot by shot
party animals
18 a francês
tarot terapêutico
"ela soube conversar"

17.7.09

22



When she was 22 the future looked bright
But she's nearly 30 now and she's out every night
I see that look in her face she's got that look in her eye
She's thinking how did I get here and wondering why


We'll see. Uh.

14.7.09

A burocracia das últimas semanas, em que sou estagiária mesmo já não o sendo



- Formulário da CCPJ preenchido;
- Cópia do Bilhete de Identidade;
- Fotografia tipo passe;
- Cópia do certificado de habilitações literárias;
- Documento comprovativo de que exerço jornalismo como ocupação principal, permanente e remunerada;
- Declaração de estágio dos dois órgãos em que estagiei;
- Documento autónomo que discrimina outros órgãos em que exerço a profissão e que contém anexos de trabalhos (como expresso na anotação 6 do Formulário);
- Cópia do comprovativo do pagamento do emolumento;
- Documentos comprovativos do início da actividade profissional como trabalhadora independente enquanto Jornalista/Repórter.

12.7.09

645

want to tell you that i love you 'cause i really do . want to give you the answers if you ask me to . want to leave your door for the last time . want to leave the floor for the first time . leave the boys, leave the girls, leave it all behind . trust your dreams, your thoughts, it's a matter of time . run right, run left, just don't look back . take this trip as your first step . 'cause the tears that we waste only make us blow . why we keep in repeat this antony song . "forgive me, forgive me, forgive me, forgive me" . you know i need you there . you know why i tried to be simple . i tried a lie . everything is perfect from there . and you know i need you there . why don't we try ? . and break all the rules . forget the lies . everything's perfect from there . you know i need you there.

9.7.09



História Trágica com Final Feliz
Regina Pessoa (2005)






At the Ends of the Earth
Konstantin Bronzit (1999)

6.7.09




















"Para mim chega."











5.7.09

O Sapato da Sogra

Doutor, tudo foi um repente, uma confusão. Ela era uma perita em banco de trás. Batons para um lado, sapatos para outro, como um sonho estranho. [...] Garanto-lhe que nem na tropa eu me tinha alguma vez servido de uma mulher da vida. Mas a curiosidade... [...] O pior, doutor, o pior ainda está para vir. Nem queira saber... É que no outro dia era sábado. Mas não era um sábado qualquer. A minha sogra fazia anos e tínhamos todos combinado ir almoçar ao Ginjal a uma tasquinha que tem umas sardinhas assadas e um tinto de se lhes tirar o chapéu. Lá nos metemos no carro, eu e a minha mulher à frente, a minha sogra e a minha filha Alexandra, atrás. Não é que durante o caminho eu vou sempre com uma mão no volante e outra, disfarçadamente a espiolhar, a tudo quanto chegava, não tivesse a galdéria do dia anterior deixado alguma coisa esquecida ali por baixo dos bancos? E que descubro eu? [...] Pois é, mesmo por baixo do meu banco estava um sapato. [...] Não é tarde nem é cedo - pensei - enquanto olhava o Cristo Rei, desviei num segundo o olhar para o lado oposto e disse: Já viram como as giestas estão tão amarelinhas desse lado? Elas a olharem, para ver onde estavam as giestas e zás, sapato janela fora. [...] Parei o carro junto ao restaurante do Ginjal, toca a sair toda a gente, menos a minha sogra. Ai, Tó Zé, tem que descobrir aí debaixo do seu banco onde é que o meu sapato foi parar, que eu tenho muita dificuldade em me curvar. O seu sapato? Qual sapato? Então não os trazia nos pés!? Não. São a estrear e o direito descalcei-o porque me estava aqui a moer um calo. O carro não tem buracos, tem de estar aí debaixo. Ainda por cima uns sapatos de pele de crocodilo que me custaram os olhos da cara.

("O Sapato da Sogra" de Eduardo de Brito Aranha
Ilustrações de Joana Silvestre)

29.6.09



54
Dás-me terra para
As raízes - Quando estás
É fácil ser árvore

[.mp3 Norberto Lobo - Mudar de Bina
.doc José Pedro F. Leite - Outros Litorais]

20.6.09

As correntes estúpidas que nunca faço, mas que vocês devem fazer aqui

1)
Reply to this post, and I will list three or more things I like about you. Then repost to your own journal to spread the love.




2)
1. put your itunes/ ipod/ mp3 player on shuffle.
2. for each question, press the next button to get your answer.
3. you must write that song name down no matter how silly it sounds!



IF SOMEONE SAYS "IS THIS OKAY" YOU SAY?
The Lighter Side Of... Hippies (Magik Markers)

WHAT WOULD BEST DESCRIBE YOUR PERSONALITY?
Sempre Ausente (António Variações) -> ahah

WHAT DO YOU LIKE IN A GUY/GIRL?
Mostly Waving (Emily Haines & The Soft Skeleton)

WHAT IS YOUR LIFE'S PURPOSE?
One Minute Shakin (Mr. Oizo)

WHAT IS YOUR MOTTO?
Are Friends Electric? (The Dead Weather)

WHAT DO YOUR FRIENDS THINK OF YOU?
Private Life of a Cat (The Lovekevins) -> ahah ii

WHAT DO YOU THINK ABOUT OFTEN?
What Would Wolves Do? (Les Savy Fav) -> mesmo

WHAT IS 2+2?
Mon Amour Mon Ami (Virginie Ledoyen) -> ahah iii

WHAT DO YOU THINK OF YOUR BEST FRIEND?
To The Country (Laura Veirs) -> esta treta adivinha mesmo

WHAT DO YOU THINK OF THE PERSON YOU LIKE?
Red Eyes and Tears (Black Rebel Motorcycle Club) -> oohh.

WHAT IS YOUR LIFE STORY?
Things Will Never Do (At Swim Two Birds)

WHAT DO YOU WANT TO BE WHEN YOU GROW UP?
Tragedy (DeVotchka) -> *DRAMA BUTTON*

WHAT DO YOU THINK WHEN YOU SEE THE PERSON YOU LIKE?
I Wanna Be Your Joey Ramon (Sleater-Kinney) -> LOL

WHAT DO YOUR PARENTS THINK OF YOU?
Une Par Une (Vive La Fete)

WHAT WILL YOU DANCE TO AT YOUR WEDDING?
Serpentine (Peaches)

WHAT WILL THEY PLAY AT YOUR FUNERAL?
Duet Under Waters (Those Dancing Days)

WHAT IS YOUR HOBBY/INTEREST? Night Of Joy (The Breethers)

WHAT DO YOU THINK OF YOUR FRIENDS?
Party (El Perro Del Mar)

WHAT'S THE WORST THING THAT COULD HAPPEN?
Sleeping With A Gun Under My Pillow (The Boy Least Likely To) -> ahah iv

HOW WILL YOU DIE?
Las Muchachas de Copacabana (Ney Matogrosso) -> uhuuhu. oh yeah

WHAT IS THE ONE THING YOU REGRET?
Snoopy Waves (Deerhoof)

WHAT MAKES YOU LAUGH?
Leaving the City (Roisin Murphy)

WHAT MAKES YOU CRY?
Peeking (Michael Nyman) -> ahah v

WILL YOU EVER GET MARRIED?
Cheerleader (Grizzly Bear)

WHAT SCARES YOU THE MOST? Good-Bye Regrets (Frivolous)

DOES ANYONE LIKE YOU?
Um Amor (versão Maria João/Mário Laginha) -> *_*

IF YOU COULD GO BACK IN TIME, WHAT WOULD YOU CHANGE?
The Magic of Crashing Stars (Tender Forever)

WHAT HURTS RIGHT NOW? La Rupture (Yann Tiersen)

WHAT WILL YOU POST THIS AS?
You, Drum (Liars)

Hoje

17.6.09

Wuthering Heights



O Alto dos Vendavais (Wuthering Heights) da Emily Brontë é um dos meus livros preferidos. E sempre adorei esta música da Kate Bush, uma canção com o extraordinário propósito de resumir centenas de páginas numa melodia de poucos minutos.

Mais eis que esta semana, ao ler o maravilhoso refrão, percebi que este objectivo ainda vais mais longe.



Heathcliff, it's me, I’m Cathy,
I've come home and I´m so cold,
let me in your window


provavelmente, este post não vai interessar a muita gente.
mas fica aqui a prova da minha existência.


E ali ao lado está uma das melhores músicas de sempre.

16.5.09

Vício


Estrelícias: sterliziae reginae. Do teu espádice emerge o mundo. Tens três sépalas laranja e três pétalas azul que eu carrego no meu sorriso. Quando os pássaros e eu nos sentamos para bebermos o teu néctar, as pétalas abrem-se e cobrem com pólen
os teus dedos.
os teus cabelos.




[Índios - The Gift
Tratado de Botânica - Joana Serrado]

29.4.09

[drama-free weekend]


santiago, mala pecora, broma, entendidas, cañas, 1906, grândola, 
cravos, bambi, 2.80€, tapas, woiza, berrogüetto, avante, 
pulseiras, castros, castrenses, miradouro, as duas, 
maias, ananás, tumbas, siza, tarta, licores, bateas, 
batalha naval

25.4.09


DRAMA-FREE 

WEEKEND







.

21.4.09

se uma gaivota


Que perfeito coração

No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,

Nessa mão onde cabia

Perfeito o meu coração

(obrigada sérgio)

se por acaso me vires por aí




Se por acaso me vires por aí . Disfarça, finge não ver . Diz que não pode ser, diz que morri . Num acidente qualquer . Conta o quanto quiseste fazer . Exalta a tua versão . Depois suspira e diz que esquecer . É a tua profissão . E ouve-se ao fundo uma linda canção . De paz e amor . Se por acaso me vires por aí . Vamos tomar um café . Diz qualquer coisa, telefona, enfim . Eu ainda moro na Sé . Encaixotei uns papéis e não sei . Se hei-de deitar tudo fora . Tenho uma série de cartas para ti. Todas de uma tal de Dora . E ouvem-se ao fundo canções tão banais . De paz e amor


[jp simões + luanda cozetti]

Lembrei-me das All Saints (guilty)


Eu ouvia tanto esta música.
No jipe da minha irmã, principalmente. Aquele Land Rover com cheiro a terra cansada. Pelos descampados de bambú, julgava eu, à procura de uma aventura que poderia ser nossa. Não falávamos, mas cantávamos. Nem sei se chegámos a partilhar a conquista daqueles lugares. Primeiro, à descoberta dos primeiros nós de várias teias. Depois, naquelas conversas intermináveis, sobre música e amores abstractos, que nunca chegavam a acontecer.
Há músicas com aroma a pequenos Transformers. Os fados bolorentos no Mercedes do meu pai. As cassetes dos extintos Pedra Pop no Opel azul-céu da minha outra irmã. Os Rainbow Arabia (e tanta coisa) num Peugeot ou os Abba na auto-estrada num veículo de dois lugares e meio. E o meu Ford, pronto.


Cantar e pouco pensar. Deve ser isso.

17.4.09

o post possível para a semana possível


rim, maria teresa horta, telefone, melga, piazolla, orvalho, chuva e mais chuva, custódia, wanna keep you so, nariz de porco, bebé, são pudins, marcador, santiago, entrevistas, oh amanda, cenouras e elefantes, petrarca, descampado, poesia, potencial acidente, tarte de maçã, uno, queijo isidoro, a arte de tornar simples, bigodes, ..., irritada, quero morrer, cigarros, bloquear, sleep all summer, encharroco, encores, so whatever, é urgente, turco, a teia, recoil,
piças!

10.4.09

agora



Respirar na boca
as tuas poucas
palavras

Sabendo tão perto
de mim
os teus joelhos




In the Mood for Love
At Swim Two Birds
Maria Teresa Horta

7.4.09

this made my day

Wes - Alane
(aquilo que ouço compulsivamente e doentiamente no trabalho)



E A versão
(de uma qualquer alma que o ouve repetidamente na redacção do belo JPN)

até


Inundar-me de ti até te expirar em pedaços. 
Mordo o lábio, desfaço-te, enterro-te em pequenos alvéolos presos, amarrados, cosidos com suturas de sangue enlameado, tóxico, impregnado de venenos vacilantes, à minha pele de sonos defuntos e hesitantes.
O amor não tem espécie, não espera. Desespera e assoberba no cordel de tecidos e vapores, brandos e nada lentos, que susténs no peito, habitado por espectros que procuram aquela quimera de te amar mais ao mais pequeno segundo.
Inundar-me de ti até te expirar em pedaços.
Depois deter-me, ter-te, em suspenso, entre as pontas dos dedos, de luto carnal, cobrir-te, acusar-me na tua boca, desmontar cada fragmento de ti e, a teus olhos, morrer-te, conter-me, foder-te.

(malerie marder + the deer tracks) 

2.4.09

a verdade é que está a acontecer muita coisa




'Till the siren comes
calling
calling

It's driving me
evil
evil

29.3.09

derramar





Metade mulher    metade pássaro
Metade anémona    metade névoa

Metade água    metade mágoa
Metade silêncio    metade búzio

Metade manhã    metade fogo
Metade jade    metade tarde

Metade mulher    metade sonho

Jorge de Sousa Braga
In "A Ferida Aberta"


[katerina jebb]

20.3.09

miranda july ou "são vidas", já dizia a outra

On action, I squeezed Carl's finger and he gripped mine. The urgency seemed obvious now, we both leaned forward and I held his bearded chin as we kissed quickly, not wanting to distract from the lead table. The feeling between us was mournful and desperate. We could not look away from each other, every inhalation was a question: Yes? Followed by: Yes. Falling and catching and falling and catching, we descended into a precarious and vivid place; I had always known it was there but had never guessed where. Carl's new sense of humor flourished in silence, he made subtly absurd gestures that surprised me into almost audible laughter. And I could not make a move without making love. Every time I shifted in my chair, lifted my fork, brushed my hair from my eyes, I seemed to be pushing through the motions as through honey, slowly and with all kinds of implications. I feared our breath was too loud. I seized his forearms, he took off his shoes, beneath the table, our feet pushed with an almost vocal eloquence. Dave cried, Cut, and then:

That's a wrap for our background, thank you, background actors!

Mon Plaisir, 
No one belongs here more than you
Miranda July

14.3.09

diz a my brightest diamond



enquanto te faltarem palavras para descrever o óbvio,
meu amor,
vou-me guardar na aglossia terna de março,
a pensar se recolho estilhaços de uma história que já não é.

fervilha a contenda de um transplante sonoro
para equilibrar as vontades bélicas e as melodias que me roubam de mim.

e, assim, desacreditar-nos como cegas,
quando a existência nos emborca para o derradeiro desfecho.






... e eu finjo acreditar.

9.3.09

no one belongs here more than you

According to Greek mythology and the Roman poet Ovid, who wrote about transformations in his Metamorphoses, Iphis (or Iphys) was the daughter of Telethusa and Ligdus in Crete. Ligdus had already threatened to kill his pregnant wife's child if it wasn't a boy. Telethusa despairs, but is visited in the middle of the night by the Egyptian goddess Isis, attended by Anubis and Apis, who assures her that all will be well. When Telethusa gives birth to Iphis, she conceals her daughter's sex from her husband and raises her daughter as a boy. Iphis falls in love with another girl, Ianthe. Iphis is deeply in love and prays to Juno to allow her to marry her beloved. When nothing happens, her mother Telethusa brings her to the temple of Isis and prays to the goddess to help her daughter. Isis responds by transforming Iphis into a man. The male Iphis marries Ianthe and the two live happily ever after. Their marriage is presided over by Juno, Venus, and Hymenaios, the god of marriage.

Algum dia tinha de ser

[micachu & the shapes - just in case]


Aceitam-se sugestões para a futura cor das paredes

23.2.09

[words of wisdom] Beach House


I tried to stay in line in our deaths / in our heads / Oh, but your wish is my command... / Oh, is your heart still mine for sale? / 
I'd like yours, here is mine.
.
Sure, you’ve got a handle on the past / It's why you keep your little lovers in your lap / Give a little more than you like / Pick apart the past, you're not going back / 
So don't you waste your time

Richard Zimler

A sua relação com Alexandre Quintanilha, que dura há 30 anos, é quase coisa de contos de fadas, não é?

[Risos] Sim, um bocado. Mas também temos problemas; não é perfeito. Mas temos respeito e amor mútuos, que é o mais importante.

Por que razão, em pleno século XXI, se fala tão pouco de homossexualidade com essa sua abertura?

É uma questão difícil e complicada. Quando eu cresci, o homossexual tinha que ultrapassar os seus próprio preconceitos. Eu entrei em pânico, pensei: “Estou mais interessado em homens do que em mulheres. O que é que isso signfica? Vou ter que mudar a minha personalidade toda? Deixar de gostar dos Beatles e dos Rolling Stones e passar a gostar mais de Judy Garland?” Não tinha modelos de comportamento com quem pudesse testar a minha personalidade. E depois, nem todas as pessoas estão em posição de assumir a sua homossexualidade sem que isso lhes traga repercussões graves e terríveis na vida. Há jovens que se o dissessem aos pais, seriam corridos de casa. E os políticos portugueses se dissessem: “Tenho uma relação com este homem”, não conseguiriam as posições altas que ambicionam.

Acha mesmo que haveria essa relação de causa-efeito?

Não sei. Como ninguém o faz, não podemos saber. A homossexualidade só é assunto porque há preconceito. Caso contrário, seria tão banal como ter olhos azuis ou verdes, ser alto ou baixo. Luto para um dia seja assim.Eu não falo da minha sexualidade po mim; falo dela por causa do jovem que vive em Beja e da rapariga que vive em Vila de Conde. Ambos se sentem frágeis devido á sua sexualidade, não conseguem assumi-la porque estão rodeados de pessoas com preconceitos. Têm que viver atrás de uma máscara. É por causa deles que falo, para que entendam que podem ser felizes, realizados, viver com amor, com paixão, com tudo. E que não têm que mudar. É importante que cada um de nós viva como é.

Mas acha que pos políticos, artistas, etc, poderiam contribuir para a abertura de mentalidades se assumissem a sua orientação sexual com tranquilidade?

Os políticos – e os cozinheiros, os advogados, os escritores, os músicos - poderiam ter um efeito muito positivo sobre a sociedade portuguesa. Se falassem abertamente da sua vida íntima, as pessoas perderiam os tabus, aprenderiam a lidar frontalmente com os problemas, com a violência e as violações sobre crianças, a denunciar os abusos. Os tabus não criam uma sociedade saudável. É preciso muita gente a falar dos seus desejos, dos seus problemas, para receber a solidariedade das pessoas individualmente e da sociedade em geral. Mas não posso dizer que as pessoas têm obrigação de o fazer.


(via Jugular)

19.2.09

Futuro primitivo (Sou Fujimoto)


Sempre desvanecidos os dois diante de nós, aniquilados.
A violência deixa-a, ela cede à ternura.

ELA. - Vejo que tem quinze anos, que tem dezoito anos. (pausa) Que voltou de nadar, que sai do mar traiçoeiro, que se estende sempre junto de mim, que escorre a água do mar, que o seu coração bate depressa por causa das braçadas rápidas, que fecha os olhos, que o sol é forte. Olho-o. Olho-o depois do medo atroz de o perder, tenho doze anos, tenho quinze anos, a felicidade nessa altura podia então ser guardá-lo vivo. Falo-lhe, peço-lhe, suplico-lhe que não volte a tomar banho quando o mar está tão forte. Então abre os olhos e olha-me sorrindo e volta a fechar os olhos. Grito que tem de mo prometer e não responde. Então calo-me. Olho-o apenas, fito os olhos sob as pálpebras fechadas, não sei ainda nomear este desejo que tenho de lhe tocar com as mãos. Afasto a imagem do seu corpo perdido nas trevas do mar, flutuando nas profundezas do mar. Só vejo os seus olhos.

Longo silêncio.

ELE. - Sabe, não consigo suportar a ideia desta partida.
ELA. - Também eu a não suporto. (pausa)Somos semelhantes perante a partida. Sabe que é assim.

[Goldberg, Mansfield.TYA, Duras]

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